Este estudo, conduzido por 8 neurocientistas portugueses, tem importantes implicações em várias áreas. A demonstração de que o stress favorece decisões habituais tem impacto na etiologia de várias patologias neurológicas e psiquiatrícas, nomeadamente pertubações obsessivo-compulsivas e comportamentos aditivos. Contudo, as consequências deste achado ultrapassam os limites dos quadros patológicos, sendo relevantes para as nossas actividades diárias. O estudo permite compreender melhor quais os factores que influenciam os processos de tomada de decisão e, em particular, como a exposição prolongada ao stress afecta os circuítos cerebrais que determinam as nossas (menos boas) decisões, na medida em que decisões que normalmente teriam em linha de conta as respectivas consequências, passam a ser baseadas em hábitos. Assim, em última análise, esta descoberta abre novas perspectivas para a modulação dos processos de decisão.
O trabalho demonstra que o stress crónico altera a estrutura dos circuitos neuronais que ligam o córtex pré-frontal (que em larga medida se assemelha à memória RAM de um computador) ao estriado. Mais precisamente, o circuito responsável pelos comportamentos orientados por objectivos (córtex pré-frontal medial e estriado dorsomedial) apresenta uma atrofia dos prolongamentos dendríticos neuronais após exposição a estímulos indutores de stress, enquanto os neurónios do componente dorsolateral do estriado, implicado em acções habituais, apresentam um crescimento dendrítico após stress. Como resultado destas alterações estruturais, há uma vantagem competitiva do circuito neuronal responsável pelos comportamentos habituais, o que explica porque motivo os indivíduos submetidos a stress crónico insistem neste tipo de comportamentos, mesmo quando as condições não o justificam.
O estudo, de Eduardo Dias-Ferreira e colaboradores, foi realizado no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS), uma unidade da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho, por uma equipa liderada por Nuno Sousa (ICVS) e Rui Costa (National Institutes of Health e Fundação Champalimaud).
Neste momento, estes investigadores estão a explorar mecanismos moleculares e funcionais que estão na base deste achado de forma a desenvolver no futuro novas estratégias com implicações nos processos de decisão, nomeadamente com finalidades terapêuticas.
|